• Caline Migliato

Um pé na política


Ilustração: Andreza Setúval

Era uma terça-feira à tarde quando pela enésima vez me sentei nas escadarias da Prefeitura de Campinas. Pelo menos uma vez por semana saía da PUC e perambulava pela Avenida Anchieta porque, bem, eu tinha um certo tempo livre. Estava no segundo ano da faculdade de Jornalismo e louca pra arranjar um estágio decente. Meu sonho era me especializar em política e trabalhar na TV. (Vou pular a parte de que me especializei em moda e passei boa parte da carreira fugindo de propostas para TV).


Eu estava tão obcecada por isso que enfiei na cabeça que queria trabalhar na Prefeitura de Campinas. Morava na mesma avenida da prefeitura, (olha aí os sinais) então passar por lá era meio que inevitável. Olhava aquelas escadarias e pensava: "um dia vou subi-las para trabalhar!".


Prazer!

Voltando a tal terça-feira, ouvi um papo entre duas pessoas: uma mulher que não entendi muito bem o que ela fazia da vida e um homem que se apresentou como Diretor de Comunicação da Prefeitura de Campinas. Meu coração quase pulou do peito. Aguardei pacientemente a conversa terminar e o abordei. Na cara dura. "Oi, meu nome é Caline, sonho em trabalhar na Prefeitura de Campinas. Sou estudante de jornalismo. Me dá uma chance, por favor". Simples assim.


Ele ficou me olhando como seu eu fosse um E.T. Então ele respondeu: "Prazer em conhecê-la, Caline, mas não temos um programa de estágio ativo no momento". No que eu prontamente respondi: "Então vamos ativá-lo. Por favor!".


Ele se limitou a me dar seu cartão e disse que era para eu ligar pra ele mais pra frente. Uma semana depois eu liguei (ele não especificou o que era mais pra frente). Ele me disse que não tinha novidades. Essa história se repetiu por mais três meses (sim, eu ligava pra ele to-da se-ma-na. Já estava me sentindo tipo a melhor amiga. Perguntava até do cachorro…).


Estágio, ativar!


Não sei bem se era para se livrar das minhas ligações ou porque de fato estavam precisando de uma mão de obra engajada e barata, mas o programa de estágio foi ativado! Ajudei no trâmite com a faculdade e pouco tempo depois estava subindo as escadarias da prefeitura para trabalhar.


Minha primeira grande responsabilidade: grampear os holerites dos funcionários. A prefeitura entrou em greve pouco tempo depois e não tinha quem fizesse isso. Ia trabalhar sob escolta da polícia civil. O que eu admito que me fazia me sentir importantíssima, apesar de hostilizada. Os grevistas me odiavam enquanto eu argumentava que eu era apenas uma estagiária.


Também vou pular a parte em que estivemos presos dentro da prefeitura porque os grevistas fecharam todas as entradas e não podíamos sair por horas o que significava ficar SEM COMER. Ok, foi traumático para uma taurina, mas sobrevivi.


Minha segunda responsabilidade foi ser rádio-escuta. O que é rádio-escuta? É a tarefa mais chata do mundo para o jornalista. Acredito que até mesmo mais chata que a ronda (ligar em delegacias, hospitais, bombeiros, etc, pra saber se houve alguma tragédia — sempre torcendo para que houvesse. Não me julguem!).


A rádio-escuta é… escutar o rádio! Anotar tudo o que dizem sobre a prefeitura para então alguém mais sênior preparar um direito de resposta. Chato. Muito chato. Pouco tempo depois comecei a odiar meu estágio e minha bolsa de R$ 350 reais por mês. Nem dava para turbinar a marmitex com o valor. Tinha que continuar dividindo a coxa de frango ao meio para o almoço e o jantar.


E pra completar ganhei o apelido Quinto Elemento do dono da agência de publicidade que cuidava da conta da prefeitura na época. Só gostaria de ressaltar que meu cabelo era ver-me-lho e não la-ran-ja. Talvez ele ficasse levemente alaranjado quando a tinta desbotava… mas isso não vem ao caso.


Milla Jovovich no filme O Quinto Elemento (1997)

Upgrade


Até que apareceu a oportunidade de uma bolsa de R$ 550 para trabalhar na Secretaria de Educação. O cargo? Estágio de Web Designer. Só pensei na grana: vai dar pra comprar duas coxas de frango! Então eu me inscrevi. Afirmei que sabia programar. Entendia tudo de HTML. Aguardei pacientemente a resposta. E ela veio: aprovada! Uhuuu! Viva a marmitex tamanho G.


Passada a euforia, a ficha caiu. Eu não entendia absolutamente NA-DA de programação, HTML, site, web designer. Nada. Nadica de nada. Ze-ro. Joguei no Google: web designer. Um dos resultados foi o software Dreamweaver (acabei de entregar minha idade…). Baixei a apostila, mandei imprimir e comecei a ler. Minha leitura de cabeceira. Me sentia nerd e burra ao mesmo tempo.


Precisava praticar tudo o que estava escrito ali. Meu tempo estava acabando. Em um mês começaria na função nova. Então me ofereci para fazer o site da loja de ferramentas do meu pai. Ele riu na minha cara: "O que você entende disso?". "Nada, ué", respondi sinceramente. "Mas não é tarde para aprender"…. Fiz o site da loja e acreditem ou não, o site está no ar até hoje. Só não digo o nome, ha! Nego até a morte que fui eu quem fez.


Made in China


No meu primeiro dia como web designer (!) fui recepcionada por um cara que seria meu chefe direto. Não senti um clima amigável. A sensação era a de que estava escrito na minha camiseta que eu era uma farsa. Ele começou a me fazer algumas perguntas sobre como eu programava blá, blá, blá. Fingi que entendia e que precisava checar algumas coisas antes de responder. Paniquei. Eu queria sair gritando pra todo mundo que eu era fake news.


No meu segundo dia recebi o seguinte job: "Caline, vamos precisar reformular todo o site da Secretaria de Educação. Por favor, me faça uma proposta de mapa do site e layout". Mapa? Mapa do quê? O que é um mapa do site? E layout? Eu escrevo, não desenho. Para, que eu quero sumir!


Nerd — mode on

Comecei a dormir, respirar, comer e viver as apostilas do Dreamweaver, Fireworks e Flash. Eu tinha que conseguir. Não estava nos meus planos desistir. Não da minha marmitex G. Não daria o braço a torcer para meu chefe mal-humorado que sabia (sim, ele sabia) que eu era uma farsa.


Fiz o mapa, montei um layout, construí o site inteiro, ganhei uma tendinite. Apresentei pra geral da Secretaria de Educação. Uma reunião giga com gente importante. Pelo menos parecia na época. Expliquei os objetivos, falei a língua dos web designers. Sucesso! Construí o site mais colorido do mundo. Meu chefe passou a me tolerar (ou não). Pena que o site novo durou apenas 6 meses, porque logo veio outra gestão e as cores do partido eram diferentes…


Mas que eu fiz, eu fiz! E graças a minha amizade com o diretor de comunicação (de fato nos tornamos amigos), fui indicada para outra empresa de assessoria de imprensa, onde fui contratada por um bom salário e fiquei por quase quatro anos. O melhor? Nada de programação! Só tive que trocar meus looks hippies por escarpins dilaceradores de dedos, mas aí é outra história. :)



 

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