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Célebres tropeços


Ilustração: Andreza Setúval

Fazia um mês que eu tinha retornado ao Brasil após dois anos morando em Madri, na Espanha. Sempre fui meio paranóica sobre ficar sem trabalhar. Sem casa, sem carro, zerada de grana, sem lenço e nem documento, resolvi buscar trabalho, ainda morando de favor na casa do cunhado, em Campinas.


Depois de implorar por algumas oportunidades em São Paulo, a revista Caras me chamou. Eles precisavam de uma freelancer para cobrir eventos noturnos. Absolutamente zero minha cara, mas vamos combinar que eu não estava em condições de escolher…


It's rock n'roll


Meu primeiro evento: show do ACDC no estádio do Morumbi para um jornal argentino. Apesar de ser meio rockerzinha (minha banda favorita é Korn, até choro!), eu não sabia exatamente o que era o ACDC.


Na época lembrei de uma conversa com alguns amigos espanhóis (eu também dava aulas de português na Espanha). Durante a aula, eles comentaram sobre o show do ACDC e que eu provavelmente iria adorar ir — eles tocaram em Madri. Fiquei pensativa durante um minuto tentando entender do que eles estavam falando. Os espanhóis não pronunciam as palavras em inglês, em inglês. Então "eicidici" ficou "acedecê". Lá, "uaifai" é "uifi" (wi-fi), "iutchu" é "udos" (U2) e assim por diante…


Ok, voltando. O tal job me trouxe dinheiro, mas também lágrimas. Não pra mim, mas para o meu marido, que ficou um tanto chateado. Ele queria muito assistir ao show, mas como comentei, a grana estava curta. Ele então foi "obrigado" a me dar aulas sobre a banda e ainda me acompanhar até o estádio. Uma semana antes do show, o único som que tocava no meu IPhone era ACDC, então logo já estava ligeiramente familiarizada com o grupo.


No estádio fiz logo amizade com dois repórteres experts em música. Passei boa parte do show fazendo anotações e gravando trechos das músicas e mandando pro marido me dizer o nome delas. Do meio pro fim do show entreguei os pontos. Cansei de fingir que estava entendendo tudo e recorri aos universitários, no caso repórteres, que me ajudaram com imputs sobre cada performance.


Na mesma noite escrevi a crítica em espanhol e mandei. No dia seguinte, acordei com uma mensagem do meu amigo repórter: "Cá, posso usar seu artigo pra escrever o meu? Tô muito bêbado, sem chance de escrever uma linha sozinho". Autorizei (afinal, ele me ajudou com o conteúdo).




Foto: não sei… :(

Choc, choc, choc, choc, choc, choc, chocooolaaateee!


Segundo job: festa solidária de famoso rico. No caso era uma festa solidária do Otávio Mesquita. Não me lembro exatamente porque era solidária, mas enfim… Consegui levar meu marido a tiracolo. Ele entrou como meu motorista (eu sei, você está se perguntando com que carro, se eu não tinha carro. Usava o carro do cunhado mesmo). Meu marido é craque em guardar fisionomia e precisava da ajuda dele para identificar os famosos.


Primeira parada: estande da Kopenhagen. Sim, tinha um estande da Kopenhagen com milhares de chocolates de todos os tipos. Tratei de arrumar uma sacola (bem sacoleira morta de fome mesmo) e abarrotei de chocolate junto com a minha (mais nova) amiga assistente de um fotógrafo de uma revista X. Fiz meu marido ir lá e encher mais uma sacola. O chocolate que para as pessoas normais duraria um ano, durou um mês na minha casa. Na casa do cunhado, no caso. E só eu comi…


E a fazenda?


Seguimos! Visualizo no horizonte Dado Dolabella. Esse eu lembrava quem era. Perguntei pra minha amiga:


-"É o que bateu na Luana Piovani, né?".

- "O próprio, gata! Mas não vai falar disso, hein".

- "Claro que não, né? Mas então o que eu pergunto? Não sei nada da vida dele."

- "Ah, pergunta da fazenda…"


E ela saiu. E eu fiquei. E eu cheguei no Dado.


-"Oi, Dado, tudo bem? Tem uns minutinhos?" (por que ele não teria? Está numa festa, sem fazer porra nenhuma…)

-"Oi, gata, claro, diz aí…"

- "Então, me conta da fazenda… Você tem uma fazenda, né? Está contente? Pensa em morar lá definitivamente?"

- "Hahahahaha, você está brincando, né?"

- "Não…", respondi sem graça.

- "Você quer falar do programa, acho… De onde você veio?"

- (da minha casa…) "Ah, é que eu acabei de voltar ao Brasil, estava morando fora. Desculpa. Não sabia que tinha um programa com esse nome…"

- "Hahaha, tudo bem! O que você quer saber, então?".

- "Tudo…", respondi querendo sumir dali.


Entenderam por que eu falei que tinha acabado de voltar ao Brasil? Ninguém me contou que tinha um programa chamado A Fazenda. Ninguém. No fim, o Dado me contou tudo sobre o programa. Quem participou, as tretas, a audiência, quem ganhou (ele no caso) e o que ele fez com o dinheiro. No fim ele foi legal. E não me julgou. Mas riu da minha cara. Com razão…


Justus, RPM e Pé-de-Chinelo


Próximo: Justus. Ô figurinha fácil. Estava sempre em to-das-as-fes-tas que eu cobria. Sempre alto, sempre simpático, sempre sorridente, sempre disposto, sempre arroz de festa, sempre bem-vestido, sempre rico.


Avisto então meu ídolo de infância: Paulo Ricardo. Sim, aquele do olhar 43! Quando me aproximei para entrevistá-lo, lembrei das gravações caseiras que mostram eu dançando e cantando enlouquecida suas músicas, e fingindo que meu urso de pelúcia gigante era ele e que éramos namorados. Então, naquele momento tínhamos Paulo Ricardo, mas não tínhamos RPM. Tínhamos sorrisos, mas não tínhamos expressão. Todo o estoque de botox de São Paulo estava esgotado.


Ele encanou com meu nome. Gostou de Caline. Repetiu 10 vezes e me perguntou o que significava. "Ca de Carolina + Aline". Zero glamour. Mas podia ter falado que vem do francês, Calina, que significa carinho. Mas não foi nisso que minha mãe pensou quando me deu esse nome.


Vejo Rubinho Barrichelo. Mas só conseguia pensar no Rubinho Pé-de-Chinelo. O que pergunto? Será que ele ganhou alguma coisa? Será que perdeu de novo? Gasto uns 10 minutos pesquisando sobre ele no Google. Anoto duas perguntas e sigo em direção a ele.


-"Rubinho, posso falar 5 minutinhos com você? Sou a Caline, da Caras!".

-"Não", responde ele direto e reto.

-"Ok."


Queriiidaaa!


Estava esgotada. Entrevistar celebridades cansa. Cansa muito. Resolvi fazer a última entrevista da noite com uma mulher idosa assediada por várias pessoas. Deve ser importante. Não sabia o nome da fulana e minhas colas (amiga e marido) não estavam por perto.


Resolvi usar a tática do:


-"Oi, eu sou a Caline, repórter da Caras, tudo bem? Posso fazer uma entrevista com a senhora?"

- "A senhora está no céu, queridaaa."

- "Mil desculpas. Pra começar, seu nome completo e idade, por favor."

- "Coooomo você não sabe quem eu sou, meu bem? Está de brincadeira comigo? E ainda pergunta minha idaaaade? Indiscreta!"


Não deu tempo de responder que era uma regra da Caras nome completo e idade. Ela se virou e deu literalmente as costas pra mim. Caminhei até o sofá mais próximo, encontrei a amiga e o marido. Comi metade da sacola de Kopenhagen e voltei pra Campinas.