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  • Caline Migliato

Amanhã eu volto!

Atualizado: 26 de Abr de 2019


Ilustração: Andreza Setúval

Eu era estagiária na Folha de S. Paulo, sucursal de Campinas. Bem, na verdade eu nunca fui estagiária oficialmente falando... Calma, me explico!


Eu estava no segundo ano da faculdade de jornalismo quando fui selecionada para fazer assessoria de imprensa para a Mostra Árabe, um evento que aconteceria na cidade. E um dos meu trabalhos era levar press kits nas redações. Na Folha de S. Paulo entreguei o kit de divulgação do evento e um brinde surpresa: meu currículo!


Poucas semanas depois liguei na Folha e perguntei se poderia conhecer como funciona o dia a dia de uma redação... Se você leu meus textos anteriores sabe que sou persistente naquilo que eu quero (até demais...).


O então editor-assistente concordou em me receber e no dia seguinte, logo depois da aula, apareci no prédio da redação me sentindo a pessoa mais importante da face da Terra. Ao entrar na sala notei um cheiro forte de cigarro. Naquela época ainda era permitido fumar dentro do escritório (não, não tenho 60 anos de idade, viu?!).


Entre uma baforada e outra, ele me mostrou a redação rapidamente e me ofereceu a oportunidade de escrever um texto. Topei na hora! Aproveitei que uma redatora estava em férias e sentei no seu lugar. Abri o editor de texto do jornal e comecei a escrever. Era uma matéria para o caderno de Cultura.


Assim que terminei, imprimi o texto e levei para ele ler. Quando terminou, olhou pra mim e disse:


- Isso aqui está uma merda!


E rasgou meu texto. Ras-gou.


Respirei fundo e disse:


- Então amanhã eu volto para fazer um texto melhor.

- Não, você me pediu um dia para conhecer a redação e já veio. Não é pra você voltar.

- Bem, e não era para você rasgar meu texto. Amanhã eu volto!


Saí de lá de cabeça erguida. Entrei no elevador e desabei. "Será que deveria ter feito engenharia?" Só pensei...


No dia seguinte eu estava lá. Ele me recebeu com cara de pouquíssimos amigos. Sentei novamente no lugar da redatora ainda em férias e reescrevi o texto do dia anterior.


- Está um pouco melhor...

- Que bom! Amanhã eu volto então para melhorar.

- O quê? Não, amanhã a redatora estará de volta. Não tem lugar pra você aqui.

- A gente dá um jeito.


Saí confiante e decidida a voltar no dia seguinte. Mas tinha o problema do computador...


No dia seguinte, conheci a tal redatora. Uma querida! Me ajudou a encontrar um novo lugar para eu ficar. Curiosamente, ao lado dela, já que o colega havia acabado de sair de férias! "Que sorte a minha", pensei.


Nova pauta, novo texto. E o resultado:


- Bem melhor... você está melhorando.

- Que maravilha! Sinto que tenho muito ainda a aprender! Nos vemos amanhã...


E assim passaram-se três longos meses. Sempre em busca de um texto melhor e de um novo lugar para me sentar. Durante esse tempo, meu editor não aprendeu a gostar de mim não, mas sim a me tolerar... A gente até conversava sobre amenidades. Olha que evolução!


Numa delas, comentei com ele que tinha medo de ficar desempregada depois de formada, no que ele sem pestanejar me respondeu:


- Para bons profissionais, nunca falta emprego.


Levei essa frase comigo pra vida. E a repito para todos os estagiários que já trabalharam comigo e que têm a mesma insegurança que tive alguns anos atrás. E sabe que a minha vida profissional nem sempre foi uma maravilha, mas mesmo quando fiquei desempregada – umas três vezes... – não me faltou emprego por muito tempo. E não é que ele tinha razão?


Em uma das minhas mais memoráveis pautas fui incumbida de escrever sobre chopes! Eu cobria cultura, lembra? Junto com o fotógrafo e o motorista saímos pelos botecos de Campinas fazendo fotos de chopes. Talvez eu não devesse ter tomado quase todos. Aliás, muito provavelmente não foi uma boa ideia. Mas de que outra maneira eu faria essa matéria?


Voltei pra redação trêbada. Agora temos o seguinte cenário: uma estagiária ilegal (em todos os sentidos), bêbada, nômade, cujo editor a odiava, cuja tela do computador flutuava na sua frente. Não conseguia escrever uma mísera palavra. "Quer saber? Amanhã eu volto!"