• Caline Migliato

A grande virada


Ilustração: Andreza Setúval

A redação estava particularmente agitada naquele dia. Editores reunidos, repórteres apreensivos. O motivo? Decisão de qual equipe iria cobrir a Virada Cultural de São Paulo e quais seriam as escalas naquele ano de 2009.


Eu, particularmente, estava tranquila. Era redatora de moda do Jornal da Tarde / O Estado de S. Paulo. Escrevia para os suplementos dominicais. Meu negócio era moda! Com muito custo consegui sair da reportagem dos plantões de fim de semana e ficar na edição do portal do Jornal da Tarde após algumas experiências zero moda. Olha só:


Plantões


Meu primeiro plantão: inauguração do espaço Ouvillas no Parque Villa-Lobos. Um calor infernal e nem uma mísera sombra (as árvores tinham acabado de ser plantadas - gente, por que não compra árvore grande? Não vende? Como ninguém inventou esse business ainda?) Tive que esperar o prefeito chegar, o Kassab, no caso, e entrevistá-lo... o que se pergunta para um prefeito sobre uma área de um parque? Pois é... também não sei.


Meu segundo plantão: morte do Glauco. Lembra? O cartunista? Então, tive que dar plantão na delegacia na esperança de prenderem o acusado. E recebi recomendações expressas de colar no delegado pra obter a informação antes da Folha. Gente, não sirvo pra isso. O repórter da Folha tentou ser meu amigo e eu burra quase me deixei enganar. Até que... chegou o repórter de polícia do Estadão! Graças ao bom Deus. Saí às pressas de lá e 5 minutos depois chegou o acusado de matar o cartunista. Que sorte a minha de não estar lá naquele momento. O que eu perguntaria? "Migo, que porra é essa? Acabou com a tua vida e tirou a vida de outra pessoa. Qual é o seu problema?". Ainda bem que não fui eu quem entrevistou, né?


Meu terceiro plantão? Edição do portal do Jornal da Tarde! Viva! Sentadinha, no ar-condicionado, só no mouse e no teclado! :)


Escala


Bom, como eu dizia, não fazia o MENOR sentido me escalarem pra cobrir Virada Cultural, certo? Bom, não foi beeem assim que os chefes pensaram... Fui escalada pra cobrir a Virada Cultura das 0h às 6h (vou escrever por extenso pra não ter dúvidas: da meia-noite às 6 horas da ma-nhã). Fiquei puta. Fiquei revoltada. Fiquei chateada. Me conformei.



Virada Cultural 2009


Nota de esclarecimento: odeio muvuca. Me julguem, não tô nem aí. Odeio carnaval e coisas afins. Odeio Virada Cultural. Não é a minha. Ponto final. Pra encarar galera só vale em show de rock e se for em casa de show. Passei da fase de estádio. Tô fora!




A Virada


No dia da Virada não fui pra redação, óbvio. Afinal, eu iria começar a trabalhar meia-noite. Combinei com alguns amigos de me acompanharem na cobertura. Estava com medo de ir sozinha. Meu marido gentilmente se prontificou a me acompanhar. Ufa! Não queria colocá-lo nessa fria (gelada), mas ele insistiu (estava preocupado, com razão) e eu aliviada e feliz aceitei. Nada como ter o maridão ao lado como guarda-costa.


Saímos de Campinas às 22h20 (sim, eu morava em Campinas ainda...). Passei na redação, peguei a listinha de onde deveria ir, deixamos o carro e seguimos com o motorista do jornal. TO-DAS as ruas interditadas. Fazia um frio do cacete. Ele nos deixou anos-luz do local onde eu deveria ir. Na minha cabeça eu só imaginava minha cama quentinha e quão injusto Deus estava sendo comigo...


Programação


Chegamos no meu primeiro item da lista (vejam a frieza com que trato o assunto). Body Modification embaixo do Viaduto do Chá. Entrei no embalo sem pensar e vi um homem pendurado por ganhos cirurgicamente instalados no seu corpo. Pessoas com pinos na cabeça, zilhões de tatuagens, homens-animais. Jamais vou me esquecer dessa cena. Quase vomitei. Sério. Saí de lá com náuseas e a cabeça pesada. Que porra é essa? Será que ele tem gancho lá no fiofó também? Fiquei na porta da saída esperando alguém passar pra fazer uma entrevista. Só perguntei uma coisa: Por quê? Por quê? Por que fazer isso?


Segundo item da lista: noite do pijama no Centro Cultural de São Paulo. Crianças felizes com seus papais e mamães "acampando"no gelado espaço do CCSP. Por quê? Por que não ficaram nas suas camas quentinhas? Por quê? Entrevistei três famílias. Tentei. As crianças estavam num frenesi que gostaria de ter levado comigo algumas essências de lavanda pra se acalmarem um pouco.


A caminho do meu terceiro local vejo um asterisco no fim da tal lista: "*entrevistar personagens nas ruas". Tecla SAP: Converse com bêbados babacas pseudofelizes. Por quê?

Já passava das 4h30 da manhã quando passei pela avenida São João tomada por homens embriagados, que mexiam com to-das as mulheres que passavam (e as que não passavam também) e usando todas as letras do alfabeto de entorpecentes. Por quê?


Sigo para o terceiro compromisso da noite: Show do Living Colour em frente à Casa São Paulo. Confesso que não conhecia o grupo e confesso que adorei o show. Finalmente algum momento de alegria naquela noite. Escuta a música mais famosinha deles:



Então vejo minha personagem: uma garota felizona, curtindo o show do alto de uma árvore. É ela! Preciso dela, das aspas dela! Convido meu marido a embarcar comigo numa jornada que atravessaria multidões e envolvia escalar uma árvore. Ele disse... não. Mas ela era a minha fonte! Eu precisava dela. Era perfeita! Insisti. Disse a ele: já estamos na #$@%*. Ok. Fomos até a moçoila feliz. Dezenas de esbarrões e um abraço na árvore depois perguntei o que ela estava achando do show, se ela já tinha ido a outras Viradas Culturais e qual programação ela mais tinha gostado. Check!


O sol começou a nascer e meu trabalho estava concluído! Não, amigos, não estava não. Com bastante dificuldade localizei o motorista do jornal que me levou direto pra redação. Precisava escrever. Escrevi uma matéria enorme contando tudo sobre a Virada, menos minhas impressões, óbvio. Isso eu deixo pro meu canal mesmo. Enquanto isso meu marido cochilava no carro. Ele foi um supercompanheiro. Agradeço ele até hoje por não me deixar sozinha nessa.


Saí da redação 7h30 da manhã. Voltei pra casa dormindo no carro enquanto ele dirigia. Estava feliz por ter sobrevivido e por ter feito um bom trabalho.


No dia seguinte, segunda-feira, cheguei animada na redação pra ver minha reportagem publicada. Uma página inteira sobre a Virada. Meu texto: um box ridículo que nem levava meu nome. Fiquei puta. Fiquei revoltada. Fiquei chateada. Me conformei. Virada nunca mais!


 

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